O outro lado da espera

Nota do autor: Esse texto é, na verdade, um e-mail que mandei pra minha namorada em resposta a uma descrição que ela fez da espera dela por mim em uma estação de metrô. Segundo ela, “meus atrasos já não surpreendem mais”.

Desci apressado do ônibus. Já estava alcançando a escadaria quando me dei conta de que não agradeci ao motorista como faço costumeiramente.
Paciência. Agora é tarde, a escada rolante está cheia e eu tô com pressa. De dois em dois, pulei os degraus da escada convencional até alcançar o andar de cima.
Como previ durante minha escalada, perdi todo o tempo que ganhei correndo na loja de conveniência, esperando por um troco que custou a vir.
Sem problema. Com o trident no bolso e o bilhete único devidamente carregado, tudo o que tinha para fazer era voar pro teu abraço.
Apostei uma corrida imaginária com todos a minha volta em direção ao metrô. Me sai bem. Tava rápido, ligado no movimento, seguro de mim, focado em você e pronto pra bandeirada.
Não sei quanta gente ultrapassei, nem quantas vezes limpei a parede do terminal com minha mochila na tentativa de passar um piloto sem pressa – inconsciente de sua condição de competidor – antes de me atirar no vagão apertado do metrô, sem nem ao menos reparar se fui brindado com a quadriculada.
Não importa. Corri os olhos pelo vagão e descobri que estava a dez estações do título mundial, da glória e da felicidade eterna. Já estivera mais longe.

(…)

Não estava mais correndo. O único motor em funcionamento era o da escada que me conduzia ao andar de cima. Ao pódio.
Lá estava o meu trófeu. Meu título mundial, com fones de ouvido cor-de-rosa e olhar impaciente, encostado na parede à minha espera. Não pude segurar o tal sorriso bobo. A hora de abraços, beijos e do tema da vitória havia chegado.

1 comment Setembro 14, 2009

Tempestade no reino das fadas

Confusão, cama molhada, mente desperta. Tempestade dominical no conto de fadas, e eu sem o conforto anestésico do meu guarda-chuva.
O castelo ruiu. Veio abaixo o encanto. Mocinhos e vilões se tornaram um só, e a alegria desmanchou frente ao sofrimento que só o tempo há de curar.
Ei de esperar que a lágrima seque, que a tempestade cesse e que as fadas regressem ao conto que lhes é de pertence.

Nota do autor: Me encanta na vida a arte de transformar dor em poesia.

Add comment Setembro 14, 2009

Peças aleatórias (II)

genuína felicidade

te adoro num silêncio inquieto
com a intensidade velada
de um sentimento completo;

de genuína felicidade,
olhares, beijos e risos
que enchem de cores meus ares
quando te tenho comigo.

você mudou

o dia virou noite
da noite pro dia.
se foram com o verão
luz, calor e melodia.

3 comments Fevereiro 28, 2009

O beijo da plataforma SS

Plataforma 55

senta e espera, coração.
nossa hora logo chegará
e será tempo de partir.

um abraço em meio ao caos.
uma passagem para outro mundo,
sem corredores, nem janelas.
sós, eu e você.

é chegada a hora
do beijo da plataforma SS
e, sem que saibamos
do nosso último suspiro.

Nota do autor: Meu intuito ao escrever essa peça era de que ela pudesse ser interpretada por duas diferentes perspectivas e que, em cada uma, cada palavra de cada estrofe tivesse um significado diferente da outra.
São dois desabafos, duas situações. Um, de um garoto que, sem saber, beija pela última vez aquela que, então, era sua namorada. Outro, o de um homem que vive seus últimos momentos perseguido pela Schutzstaffel (SS) – organização militar ligada ao partido nazista de Hitler – durante o terceiro reich.

1 comment Fevereiro 18, 2009

Peças de rodoviária (I)

A espera

a espera é revoltante.
a expectativa…
a expectativa da espera…
revoltante.

Sorria, você está sendo filmado.

estou sendo filmado;
cercado.
milhares de vidas com pressa;
sem pressa.
não estou só,
eles também estão sendo filmados.
cercados, ninguém nos vê.

Cada passageiro na sua plataforma

piano, choro, papo;
arrastar de sapatos
de cores, tipos e tribos.
aqui, destino se vende, e não se dá.
ainda que haja destino pra dar e vender…
escolha o seu.
seja mais racional do que eu,
ou o destino que te espera
te fará esperar.

2 comments Janeiro 28, 2009

Peças aleatórias (I)

A culpa é delas

os românticos morreram. o romance os matou.

Solidão na multidão

milhares de pessoas,
uma crise,
nenhum colo.

Jogo das pétalas

bem me quer, mal me quer;
vai me ligar, não vai me ligar;
vem, não vem;
não sobrarão flores neste buquê.

Add comment Janeiro 28, 2009

Camadas

É loucura sequer considerar a perspectiva de pensar e repensar cada passo, gesto ou palavra. O que seria de nós se tivéssemos que parar para analisar cada uma dessas coisas antes de colocá-las em prática? O que aconteceria se sua esposa dissesse que te ama e você parasse para refletir ao invés de responder prontamente que a ama também? Ou se seu chefe delegasse a você uma difícil tarefa e você dissesse que precisa pensar a respeito?

Impraticável, de fato. Mas, a título de reflexão, vamos pensar e repensar tudo isso.

A terceira lei de Newton, por exemplo, diz que para cada ação há uma reação. De acordo com esse princípio, se dermos um soco em uma parede, nossa mão receberá de volta um impacto com a mesma força aplicada no golpe.
Isso também se aplica ao campo humano. Nesse cenário, porém, a equação é um tanto mais complexa.
Quando dizemos alguma coisa, a conseqüência não é necessariamente uma resposta de efeito similar. Cada atitude que tomamos – seja na forma de um passo, gesto ou palavra – atinge inúmeras camadas. Para cada camada, uma reação.
A manifestação de um sentimento pode alegrar uns e machucar outros. Um gesto de atenção, sem pretensão, pode apaixonar e aborrecer. A distração, ainda que ingênua, pode ferir irremediavelmente e fazer rir. Tudo isso sem que a gente se dê conta. Fazemos sem pensar.

Quanta coisa poderia ser evitada se não tivéssemos esse costume? Por outro lado, será que pensar demais não complicaria muita coisa?
Que bom seria se Newton pudesse explicar o humano e não tivéssemos que recorrer a Freud… São tantas camadas…

Nota: Essa questão é muito mais profunda. Vai muito além do que foi dito. Essa peça é apenas um “alimento para reflexão”. A continuidade fica por sua conta…

1 comment Novembro 27, 2008

Charge: O Americano

O Americano, por Ariel Cahen

O democrata Barack Hussein Obama, 47, confirmado vencedor da disputa eleitoral pela presidência dos Estados Unidos na madrugada do último dia 05 de novembro, entrou para a história ao ser eleito o primeiro presidente negro do país. Mais do que uma vitória pessoal de Obama, a eleição do democrata à Casa Branca simboliza uma vitória, ainda que tardia, de movimentos anti-segregacionistas que marcaram os anos 50 e 60.

Apesar de nos Estados Unidos o voto popular não ser obrigatório – e nem decisivo -, cerca de 122.570.000 americanos foram às urnas no dia 04 de novembro. Um recorde de comparecimento, que pode ser justificado pelo caráter essencialmente espetaculoso da disputa desse ano e pelas inúmeras campanhas de incentivo ao voto popular – algumas delas, por sinal, de natureza bastante duvidosa.

Para convencer o eleitor americano a tomar partido na decisão daquele que irá governar o seu país pelos próximos quatro anos, algumas empresas ofereceram brindes – sim, brindes – a todos aqueles que apresentassem o comprovante de votação (adesivos com os dizeres: “Eu votei”, entregues aos eleitores que compareceram às urnas).

Vale Dildo
Cafés do Starbucks, donuts, sorvetes, cervejas, garrafas de champagne, refeições e, pasmem, vibradores, são alguns dos mimos disponibilizados na tentativa de motivar o eleitor americano a fazer parte de uma escolha que poderá afetar, positiva ou negativamente, o destino do seu país e, por que não, de todo o mundo.

Um pouco mais de (falta de) humor: Johnny e as 70 virgens

Com a difícil tarefa de encontrar um personagem expressivo para minha charge, decidi telefonar para Johnny Bravo.
Depois de longas horas tentando explicar o complexo contexto da sátira, Johnny finalmente compreendeu aonde eu queria chegar. E se ofendeu…
Não por ser americano, mas porque, segundo ele, ele optaria pelo caminho para mudar o mundo.
Com a difícil tarefa de convencê-lo a colaborar nas mãos, me lembrei de algumas histórias que li em um livro de origem árabe cujo nome não me recordo, e as contei a Johnny. Animado com a perspectiva de dividir o paraíso com 70 virgens, o americano Johnny Bravo aceitou meu convite.
Se a moda pega…

5 comments Novembro 8, 2008

Sem título

sem escolha, desisti.
segui em frente, sorri.

viraste luz;
passaste a iluminar o escuro e a ausência;
o vazio de consciência.

“como se fosse novidade…
como se não fizera antes…”

sempre. não de modo figurado;
assim mesmo: por extenso.

mas tudo estava bem até então.
andei todo esse tempo sem sair do lugar,
conscientemente inconsciente;
até me fiz acreditar.

sem escolha, sonhei;
vi, ouvi, sorri.
fui buscar felicidade.
inconscientemente consciente;
te encontrei.

te deixo ir.
me deixa ir.
mais uma vez:
sem esperança, morrer.
sem ar, sufocar.

Add comment Setembro 13, 2008

Breve reflexão sobre vida e morte

Acreditamos ser donos das nossas vidas. Fazemos o que queremos e temos controle de tudo, até que um dia a vida aparece vestida de morte só pra nos lembrar de que estamos errados.
Somos animais vertebrados, bípedes, racionais, inteligentes e cheios de si. Somos um monte de merda.
Não passamos de seres humanos, com toda a vulnerabilidade que isso implica. Vivemos uma vida toda para depois sermos levados, sem aviso prévio. As coisas boas de nossas vidas são nosso maior tesouro e, possivelmente, as únicas coisas que levaremos dela. As coisas más, por sua vez, nos fazem ‘crescer’.
Vamos morrendo à medida que crescemos. Vivemos do bom, morremos do mau e não cabe a nós decidir pelo que vamos passar. É um presente tão incrível quanto injusto.

Add comment Abril 28, 2008

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